Os heterônimos de Fernando Pessoa

Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.

(“O guardador de rebanhos”, Alberto Caeiro)

Fernando Pessoa (Lisboa, 13/ 06/1888- Lisboa, 30/11/ 1935) considerado um dos maiores poetas do mundo, era tão vasto, que não podia ser um só,  então ele criou alguns heterônimos , que são autores fictícios para assinar seus poemas. Seus heterônimos têm personalidade própria, como se realmente fossem autores independentes. Os personagens criados por Pessoa são Ricardo Reis, Alberto Caeiro e Álvaro de Campos.

Fernando Pessoa na Baixa de Lisboa, onde costumava passear e tomar um café na cafeteria “A Brasileira” no Chiado, onde hoje existe uma estátua na mesa que costumava sentar. Foto: Wikipédia

Fernando Pessoa criou biografias para seus heterônimos. Alberto Caeiro era um camponês sem estudos, mas com um vasto mundo interior, filosófico, do signo de leão, um pensador da vida. Na sua simplicidade, era claro e profundo na sua observação do mundo. Morreu de tuberculose. Em “O guardador de rebanhos” (1911- 1912), um longo poema atribuído a Alberto, onde ele descreve- se assim:

Se quiserem que eu tenha um misticismo, está bem, tenho-o.
Sou místico, mas só com o corpo.
A minha alma é simples e não pensa.
O meu misticismo é não querer saber.
É viver e não pensar nisso.
Não sei o que é a Natureza: canto-a.
Vivo no cimo dum outeiro
Numa casa caiada e sozinha,
E essa é a minha definição.

Ser um só poeta já é difícil, mas o genial Fernando Pessoa conseguiu administrar seus quatro “eus” com maestria, talvez ele mesmo, talvez não, quem sabe? Como nos contou o próprio Fernando em Autopsicografia, O poeta é um fingidor/ Finge tão completamente/ Que chega a fingir que é dor/ A dor que deveras sente.

Fernando Pessoa era fluente na língua inglesa, escrevia e lia nesse idioma. Foto da contra- capa do livro “A First Latin Course”, onde ele coloca a data em números romanos. Esse livro fazia parte da sua biblioteca pessoal, esse e outros livros estão hoje na Casa- Museu Fernando Pessoa, em Lisboa, onde há vasto material sobre o escritor.

Deixo aqui a estrofe final do poema de Alberto Caeiro, com toda a verdade das coisas simples, “O guardador de rebanhos”:

XLIX

Meto-me para dentro, e fecho a janela.
Trazem o candeeiro e dão as boas noites,
E a minha voz contente dá as boas noites.
Oxalá a minha vida seja sempre isto:
O dia cheio de sol, ou suave de chuva,
Ou tempestuoso como se acabasse o Mundo,
A tarde suave e os ranchos que passam
Fitados com interesse da janela,
O último olhar amigo dado ao sossego das árvores,
E depois, fechada a janela, o candeeiro aceso,
Sem ler nada, nem pensar em nada, nem dormir,
Sentir a vida correr por mim como um rio por seu leito,
E lá fora um grande silêncio como um deus que dorme.

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