Amor de perdição, Camilo Castelo Branco

Considero- te perdida, Teresa. O sol de amanhã pode ser que eu o não veja. Tudo, em volta de mim, tem uma cor de morte. (p.123)

Se você gosta de narrativas de amor tipo “Romeu e Julieta”, de histórias de amores impossíveis, você vai gostar desse livro, que está claramente inspirado na obra mais famosa de Shakespeare. Essa é uma edição portuguesa da editora Leya, comprada na Fnac de Lisboa:

Não posso ser o que tu querias que eu fosse. A minha paixão não se conforma com a desgraça. Eras a minha vida: tinha a certeza de que as contrariedades me não privariam de ti. Só o receio de perder- te me mata. (Simão, p. 123)

Escrita em 1862, Amor de Perdição conta a história de amor entre Teresa e Simão, filhos de duas famílias inimigas, eles tinham só 16 anos quando surgiu o amor . Tudo acontece em Viseu, Portugal, no século XVIII, na época em que os casamentos ainda eram feitos por conveniência. Simão Botelho, um jovem universitário rebelde, conflitivo, filho de um comendador, apaixonou- se pela vizinha Teresa de Albuquerque, uma menina que só tinha duas opções: casar com seu primo Baltasar Coutinho ou ir para um convento, só que ela também apaixona- se pelo vizinho rebelde. Teresa contrariou a vontade do pai, Tadeu de Albuquerque, e decidiu não casar, foi para o convento. Essa parte da história chega a ser cômica: as freiras que têm vocação para tudo, menos para a vida religiosa, surpreendem e enojam Teresa, pois vivem envoltas em fofocas, são adeptas do vinho como “remédio estomacal”,  num ambiente cheio de intrigas e línguas viperinas, nada a ver com a vida cheia de virtudes, caridosa e espiritual que sempre ouviu dizer que havia nos conventos.

Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco

(Lisboa, 16/03/1925- São Miguel de Seide, 01/06/1890) 

“Amor de perdição” é um romance romântico, que o autor contou com conhecimento de causa, ele mesmo viveu um amor impossível, apaixonou- se por Ana Plácido que era casada com o brasileiro Pinheiro Alves. Camilo rapta Ana, mas o adultério naquele tempo era crime e os dois foram presos no Porto, onde ele escreveu o romance Memórias da cárcere. Camilo e Ana ficaram juntos, tiveram muitos filhos, daí a produção tão intensa do escritor, que teve que trabalhar muito para sustentar a família numerosa. Camilo Castelo Branco foi o primeiro escritor português a viver exclusivamente de literatura.

O que me resta do passado é a coragem de ir buscar uma morte digna de mim e de ti. Se tens força para uma agonia lenta, eu não posso com ela. (p. 123)

Simão amava Teresa com toda a sua alma e estava disposto a morrer por ela, não mediu nenhuma consequência, foi extremamente valente, enfrentou o pai da moça (Um déspota) o prometido de Teresa e com a impossibilidade quebrando seus desejos. Foi preso por um assassinato, ganhou o ódio dos seus pais, ficou sem família, mas sentia- se digno e forte pra enfrentar a morte, já que a vida lhe privou do seu amor.

O destino há- de cumprir- se…Seja o que o Céu quiser. (p. 126)

O ferreiro Joâo da Cruz e sua bela filha Mariana, ajudaram a Simão em seus encontros com Teresa, com dinheiro, além de o terem ajudado a curar- se de um tiro que sofreu numa emboscada com o primo prometido de Teresa e que continuaram ajudando Simão enquanto esteve preso, já que a sua família não quiser saber mais nada dele. A mãe, D. Rita Preciosa, foi impedida pelo marido corregedor a ajudar o filho que havia sido condenado à forca, em sua fúria dizia que a “lei era para todos”. Antonio da Veiga, um tio- avô octagenário usou um argumento muito convincente que obrigou ao corregedor ir ao socorro do filho. Simão era muito forte e mantinha- se forte, mesmo com a condena á forca, mas desabou quando teve certeza que Mariana, a linda e doce Mariana, chorava e queria morrer caso Simão morresse. Por um momento ele esqueceu de Teresa e chorou pelos tristes desígnios da vida e do amor, falou do amor de Teresa e Mariana:

Uma, morrendo amada, outra, agonizando, sem ter ouvido a palavra “amor” dos lábios que escassamente balbuciavam palavras de gratidão. (p. 147)

Simão ficou sem ver Mariana durante sete meses e Teresa estava num convento no Porto. Simão começou a ficar muito confuso e pensava mais em Mariana que em Teresa, e quis partir a cabeça na parede. Mariana ali, sempre a seu lado, e ele não a via. Ele e Mariana sentiam a mesma dor do amor impossível. Ele podia ter ficado com Mariana que era linda e completamente apaixonada por ele, mas quem manda no coração?

Simão preso e Teresa definhando no convento do Porto durante 7 meses, estava doente, tísica e à beira da morte. Seu pai disse que assim era mais digno do que ter desonrado a família. Teresa escreve uma carta belíssima a Simão, romântica até não poder mais, não vou colocar os trechos mais bonitos para vocês ficarem com vontade de ler:

“Que mal fariam a Deus os nossos inocentes desejos?!… Por que não merecemos nós o que tanta gente tem?! (…) O pior sãos as saudades. (…) Ao menos morrer é esquecer.” (Teresa em carta para Simão, p. 153)

Simão envia uma carta de volta, suplicando que Teresa viva, que se agarre ao último fio de vida, pois ele ainda tem esperança de que irão ficar juntos. Será que ficaram? Vou parar de contar, agora é com vocês!

Só no final do livro que descobrimos que o narrador é o sobrinho de Simão, filho do seu irmão Manuel. Leitura super recomendada, o livro não é nada monótono, tem um ritmo bem legal, emocionante e escrito num português luso rico, com os diálogos “de época”, mas muito naturais, entramos na história e passamos a fazer parte dessa linda e extremamente triste história de amor.

A desgraça afervora ou quebranta o amor? (p. 197)