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França, paris, literatura francesa, marcel proust, os prazeres e os dias, jean beraud, robert proust, mozart, Idiotinha Bastos, Rafinha Bastos
“Os paradoxos de hoje são os preconceitos de amanhã, pois os mais repugnantes preconceitos de hoje tiveram um momento de novidade em que a moda lhes emprestou a sua frágil graça.” (p.114)
Valentin Louis Georges Eugène Marcel Proust (Auteuil, 10/07/ 1871 - Paris, 18/11/1922), filho de Achille Adrien Proust, um médico importante na época e da dona- de- casa Jeanne Weil, família tradicional e católica (apesar de sua mão ter origem judia). Teve um irmão que era médico, Robert, que publicou as obras póstumas de Proust. O escritor estudou em bons colégios e cursou Ciências Políticas na Universidade de Sorbonne, frequentou a alta sociedade francesa. Era homossexual assumido e seu amante era o músico venezuelano Reynaldo Hahn, nacionalizado alemão (segunda foto abaixo).
Na foto, Proust aos 38 anos:
O seu melhor livro considerado pela crítica “uma obra- prima da literatura do século XX”, composto por 16 livros, ”Em busca do tempo perdido” custou- lhe a vida para ser escrito. Abaixo um trecho do manuscrito em sua escrita caótica:
Proust tinha uma escrita labiríntica, detalhista, prolixa, sensível e em vários dos seus textos mostrou descontentamento com a falta de sinceridade que havia na sociedade parisiense: para se ter amigos e ser popular havia que ser hipócrita. Em “Os prazeres e os dias”, a maioria dos textos trata sobre a alta sociedade de Paris do início do século XX, Proust narra acontecimentos nos salões e festas da época, cria personagens que criticam negativamente músicos e escritores, “Mallarmé já não tem talento, mas é um conversador brilhante”(p.63), coloca a frase na boca de Pécuchet, no conto “Mundanismo e Melomania”. E assim vai soltando verdades que possivelmente ele mesmo gostaria de dizer, mas que sua maneira polida e gentil não permitia, não queria ferir sensibilidades, ele mesmo era muito sensível, dizem as várias biografias espalhadas pela internet. O povo da época deve ter notado, ele não foi um grande vendedor de livros.
Literatura fina para bons leitores: “Os prazeres e os dias” (1924) consta de 67 textos curtos e brilhantes, a maioria criticando os usos e costumes da sociedade burguesa de Paris, delata os “snobes”, fala das fraquezas humanas, dos sentimentos e usa o lirismo em “Argumento” (p. 53), trata dos males de amor e dos amantes compulsivos, mas o que parece incomodar mesmo é a falta de franqueza: não poder dizer a verdade, a sinceridade é confundida com falta de respeito- naquela época e ainda hoje- os textos são super atuais.
A ironia e a sátira dão o tom na maioria dos textos, mas também há uma certa amargura e tristeza, como no conto “Melancólica vilegiatura de Madame de Breynves”, onde Françoise se apaixonou por um homem feio e sem talento, e preferiu amá- lo de forma platônica “(…) que, ao conhecê- lo melhor, tudo isso havia de se dissipar, ela dava a esta miragem toda a realidade da sua dor e volúpia”. (p.79). M. de Laléande nem sabia que a madame da alta sociedade existia e nem que ela estava tão apaixonada, ele tão feio e com sua vida tão medíocre, ele que apreciava péssima música e o mais exótico que tinha na sua casa era uma foto da praia de Biarritz. “Ela vê- o, brilham- lhe os olhos.” (p.83). A madame preferiu ficar só que aparecer em sociedade com um homem feio e medíocre, melhor a ilusão.
Quadro de Jean Beraud, “No café”. Beraud foi contemporâneo de Proust.
Proust também dedica um capítulo aos versos em “Retratos de pintores e de músicos”, onde escreve poemas- homenagens a músicos e pintores que parece admirar muito. Os últimos versos, da última estrofe do poema que escreveu sobre Mozart:
“Escoa a sua flauta encantada, com amor,
Dos sorvetes, dos beijos e do céu o frescor.”
Em “Confissão de uma jovem”(p. 90), Proust cita a Imitação de Jesus Cristo, Livro I, c. XVIII:
“Os desejos dos sentidos arrastam- nos para cá e para lá, passado instante, que ganhais? remorsos de consciência e dissipação de espírito. Parte- se no meio da alegria e regressa- se na tristeza, os prazeres da noite entristecem a manhã. Assim, a alegria dos sentidos adula- vos pela manhã, mas acaba por vos ferir e matar.”
O conto é genial, ele conta a história de uma moça que se confessa no leito de morte. O texto é sobre imposição social, familiar e a culpa. A menina não era dona do seu próprio corpo e nem dos seus desejos, fazia de tudo para agradar a mãe.
Proust viveu uma juventude boêmia, era muito apegado aos seus pais, será essa a conclusão que ele chegou depois de tudo? Teria sido parte dos seus pensamentos depressivos esse moralismo e arrependimento tardios? Sim ou não, o arrependimento é um sentimento universal.
Para quem ama a cidade de Paris como eu, vai se deliciar com a beleza dos textos “As mágoas- devaneios ao ritmo do tempo” (p. 108). São trinta textos que passeiam pelos bairros parisinos e nos deixam frases belíssimas, e outros que nos deixam alguns ensinamentos para a vida, são quase fábulas do cotidiano, com pequenas lições, que me fizeram refletir sobre os meus próprios sentimentos, porque Proust falou sobre sentimentos universais, no fundo, somos todos muito parecidos.
Asmático e alérgico desde criança, faleceu por causa de uma pneumonia mal curada aos 51 anos de idade, junto com uma depressão que carregava desde a morte dos seus pais. Ele recusou- se a receber um médico e fazer exames, e foi seu irmão, o dr. Robert, que o obrigou a tratar- se, mas já era tarde demais. Ele tomava estimulantes para manter- se acordado de dia e calmantes para conseguir dormir de noite, e isso acabou debilitando o seu organismo. Nessa etapa, ele dava os últimos retoques na sua obra- prima, que o manteve recluso, obcecado e cheio de manias até os seus últimos dias, como a aversão ao barulho e à luz do dia, precisava manter- se muito abrigado mesmo no verão, ele tinha comportamentos autodestrutivos e antissociais.
Sou fã de Proust, porque ele disse o que pensava fingindo não dizer, um não- dizer totalmente ao estilo Fernando Pessoa. Não é coisa de gênio?!
“Um dia ventoso”, de Jean Beraud
“Extenuado, nem sequer já aquecido pelo sol raro, o Outono perde uma a uma as suas últimas cores.” (p. 109)
Aos vinte e cinco dias de outubro, nesse outono em Madrid.
Proust, Marcel. Os prazeres e os dias. Editorial Estampa, Lisboa, 2010.



Parabéns pelo post, Nanda! Eu particularmente adoro Proust!!
Obrigada, Rô! Ele é muito sensível e diz muitas verdades, um livro pra refletir mesmo. Um beijao!
Fer, que belo post! Recebi uma chuva deliciosa de Proust! Preciso ler esse cara o quanto antes!
Um beijão
Obrigada e beijos!!