No dia da morte de Carlos Drummond de Andrade

No dia da morte de Carlos Drummond de Andrade (17/08/1987), há 23 anos, eu estava vivendo o meu primeiro amor na Bahia, chovia e estava nublado no Rio de Janeiro, o Vasco comemorava o campeonato Estadual, estavam acontecendo os jogos Pan- Americanos, Nelson Piquet ficou em 2º lugar no GP na Áustria, também seu aniversário, e o nosso querido Senna havia ficado em 5º lugar.

Como a vida muda. Como a vida é muda. Como a vida é nula. Como a vida é nada. Como a vida é tudo. Tudo que se perde.

No dia da morte de Carlos Drummond de Andrade, o presidente era o José Sarney, os fiéis de um rito esotérico saudavam a nova era na praia, o Brasil jogava a Copa América e estava nas semi- finais contra o México, a estreia nos cinemas era “Sem perdão”, com Richard Gere e Kim Basinger, você podia comprar um Monza dourado, ano 1987, por 570.000 reais.

Não, ninguém morreu, ninguém foi infeliz. A mão- a tua mão, nossas mãos- rugosas, têm o antigo calor de quando éramos vivos. Éramos?

A gente não tem a ideia que a vida passou não, sabe? é uma experiência que você não pode apreender bem, só mesmo a gente se vendo… Você olhando pra trás,  vê que foi extremamente rápido, é uma coisa curiosa isso, não dá pra gente sentir a idade não,dá pra sentir que o negócio foi muito veloz, um processo demasiado rápido, como se você tomasse um avião superssônico, coisa assim. Eu me lembro de coisas da minha infância, como se tivesse passado ontem, então cheguei à conclusão que tudo passa num minuto mesmo.

Hoje somos mais vivos do que nunca. Mentira, estarmos sós. Nada, que eu sinta, passa realmente. É tudo ilusão de ter passado.

No dia que Carlos Drummond de Andrade morreu, a vida continuou a mesma: fez sol, chuva, o povo foi trabalhar, o dólar subiu, o real baixou, nada mudou, nada.

Os ombros suportam o mundo Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus. Tempo de absoluta depuração. Tempo em que não se diz mais: meu amor. Porque o amor resultou inútil. E os olhos não choram. E as mãos tecem apenas o rude trabalho. E o coração está seco.

No dia que Carlos Drummond De Andrade morreu, a notícia nem saiu no jornal, porque as edições eram só impressas e saíam de manhã cedo. A notícia saiu no dia seguinte, 18/08/1987, Drummond faleceu de tristeza, disseram que foi do coração, edema e dispnéia, mas ele desistiu de viver. Morreu 12 dias após a morte da sua filha Julieta.

A filha Maria Julieta, a esposa Dolores e Carlos Drummond de Andrade*

Mas as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão.

* foto: http://www.fotolog.com.br/ondaalta/20292908

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5 comentários sobre “No dia da morte de Carlos Drummond de Andrade

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