“Navegando” no dispensável, Rubem Alves

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Quando terminei de ler esse livro, a primeira coisa que me veio na cabeça foi: “esse livro não precisava existir!”. Ele é todo errado, cheio de ideias furadas, de absurdos, incoerências e até falta de respeito. O livro foi escrito no ano 2000 e não no século XV.

Rubem Alves ( Boa Esperança, Minas Gerais, 15/ 09/ 1933) que, segundo o meu amigo Wiki, tem formação em teologia, psicanálise e filosofia, é escritor e educador, com um curriculum tão invejável como pôde escrever um livro tão simplório e desinformado?!

O livro tem uma seleção de 15 crônicas que tentaram ser poéticas, mas passaram longe disso, foram divididas em capítulos assim: “O MAR”, “O CAIS”, “PARTIDAS”, “VIAGENS” e “NAUFRÁGIOS”, títulos que não têm nenhuma coerência com os textos. Realmente, um livrinho “Titanic”, poderia ter ficado na gaveta ou no fundo- do- mar. Nessa hora que eu penso que às vezes é o nome, a fama, que faz o escritor, porque se esses textos fossem enviados para algum editor com o nome de algum desconhecido, certeza que no primeiro parágrafo já teria sido descartado. Vamos lá…

Logo na primeira frase da primeira crônica, “Em louvor à inutilidade”, ele diz “Brinquedo não serve para nada.” Não vou comentar sobre todos os absurdos dessa afirmação, mas cito só as básicas: os brinquedos servem para divertir, interagir e educar. E o escritor continua: “Objeto inútil. Útil é uma coisa que pode ser usada pra algo. Por exemplo, uma panela.” (p. 13) Quando eu li isso já vi que não poderia mais levar esse escritor a sério. E piorou. Ele disse que foi fazer uma palestra para o pessoal “da terceira idade”. A primeira coisa que disse que a idade deles era legal, porque chegaram na idade em que podem ser inúteis. As pessoas tomaram como uma ofensa. E é. Ninguém gosta de ser chamado de inútil em nenhuma idade. O texto inteiro apresenta um absurdo atrás do outro.

Na segunda crônica, tudo foi de mal a pior. Se esse homem é psicanalista, eu sou física nuclear. Em “A síndrome do pânico”, ele mesmo diz que conhece “pouquíssimo” do assunto ( e por que falar de algo que não entende?!). Ele usou a chacota, a graça sem- graça, a ironia, pra falar de problemas psicológicos e falou superficialmente de um tema sério e que atinge milhares de pessoas no mundo todo. Foi ofensivo. Ele diz que não acredita que a “Síndrome do Pânico” seja provocada por um desequilíbrio químico do organismo, como já foi provado cientificamente, e que a pessoa entra em pânico por ver algo que “lhe dá grande pavor”, como a visão de um cão feroz. Quem entende o mínimo do assunto, sabe que a Síndrome acontece em qualquer lugar, na fila do supermercado, no banco, cozinhando em casa, que o Pânico é sorrateiro, silencioso, que não precisa nenhuma visão pavorosa ( real ou imaginária) pra acontecer. Um psicoterapeuta que não entende do mal da humanidade?! (do medo?!)

Os demais textos são também ruins, muitas citações de outros escritores ou para “encher linguiça” ou para tentar passar uma imagem de grande erudição. Pra dizer que existe algo de bom nesse livro: as citações de outros escritores que ele usa entre os capítulos e nas crônicas em si, mas que têm mais utilidade “desencaixadas” das ideias do autor do que no contexto.

Resumo: um livro incoerente, sem unidade, inconsistente, com ideias frágeis, também contraditório, que fecha com um texto dramático sobre a morte do amigo do escritor, onde ele praticamente chama “deus” de assassino, que ele (deus) estaria feliz e que era o culpado pela sua dor. Uma pessoa totalmente desequilibrada.

Quando leio livros assim fico mais a favor ainda dos e- books. Um verdadeiro crime derrubar árvores pra imprimir isso.

Veredito: NÃO RECOMENDADO!

As cartas da filha de Drummond para o seu pai

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Carlos Drummond de Andrade (Itabira, Minas Gerais, 31/10/1902- Rio de Janeiro, 17/ 08/ 1987) poeta consagrado no Brasil, tinha um lado doce, carinhoso, era um paizão com a sua única filha Julieta, que faleceu de câncer generalizado 12 dias antes da morte do poeta. Ele tinha um relacionamento super estreito com a filha e não suportou a sua partida.

Fonte: Estadão

Os dois trocavam apelidos carinhosos: Enquanto Drummond chamava Maria Julieta de “julica”, “filha amada” e “filhareca”, Julieta retribuia com “Cacá”, “papai querido” e “poeta amado”.

Olha o capricho de Julieta Drummond escrevendo ao seu pai com apenas 8 anos:

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

( “As sem- razões do amor”)

Apaga a luz e acende o tablete

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Em primeiro lugar: por que usar o nome “tablet”? Na língua portuguesa há um correspondente perfeito: “tablete”. Não sou purista, mas há um excesso de anglicismos e americanismos no vocabulário do brasileiro.

A ideia desse post surgiu depois de uma discussão no Facebook, onde a maioria das pessoas defendia o livro de papel. Deduzi que nenhuma delas possui um tablete. Isso anda acontecendo muito: “não conheço, mas não gosto”. Depois desse debate, fiquei a pensar sobre os argumentos que as pessoas utilizaram para defender os livros tradicionais: “nada substitui o prazer de folhear um livro, o cheiro do livro, a textura, a magia da biblioteca.”Decidi criar uma lista em prol dos tabletes:

1. A leveza. Os tabletes, ou leitores de livros digitais, pesam uns 200 gramos. Se todos os livros didáticos das crianças estivessem em formato digital, elas não carregariam excesso de peso nas mochilas, aliás, nem precisariam de mochilas, e não sofreriam problemas de saúde por essa causa.

2. Quantidade. Você pode carregar uma biblioteca enorme na sua bolsa: dependendo da memória do tablete é possível ter acesso imediato a 100- 200 mil títulos. O meu, por exemplo, é um bq Kepler de 8 GB com possível ampliação via cartão de memória, sua capacidade aumentaria em até 8 vezes.

3. Preço. Os e-books são muito mais econômicos se você é consumidor habitual de livros, fora que há uma infinidade de livros para baixar grátis pela internet.

4. Espaço físico. Os espaços ocupados pelos livros poderiam ser aproveitados para outras coisas, inclusive nas bibliotecas. Os espaços das estantes poderiam ser habilitados para colocar mais mesas e assim comportar mais leitores. Muitas bibliotecas públicas nas cidades e de universidades estão saturadas por falta de espaço de armazenamento. Exemplifico com a Complutense de Madrid, que guarda os livros da área de Letras em dois edifícios diferentes e há uma longa espera até o livro chegar na mão do estudante, tal processo pode demorar uma manhã ou tarde inteira. Os e-books evitariam esse problema.

5. Higiene. Os tabletes não acumulam poeira, fungos, bactérias, ácaros e todo tipo de micoorganismos prejudiciais à saúde. Fora restos biológicos, insetos e restos de comida.

6. Ecológico. Os tabletes são mais ecológicos do que os livros em papel. A indústria madereira é uma das mais selvagens e que destróem mais a natureza. Reciclar papel também polui, gasta energia, produz papel barato, mas de baixa qualidade e prejudicial à saúde. Só 30% do papel feito no Brasil provem de reflorestamento. O meu prazer de ler produz a derrubada de árvores e eu acho isso uma barbárie.

7. Mais recursos. Os tabletes permitem ampliar a letra, ter acesso rápido a dicionários e fotos, podemos sublinhar, acrescentar notas, selecionar trechos. E apagar isso tudo sem estragar nenhuma página.

8. Leitura noturna. Você pode ler à noite sem ter que acender a luz. Em viagens em trens, aviões, ônibus, você pode ler sem incomodar o vizinho, o mesmo não acontece com o livro de papel.

9. Cheiro. Para os defensores do “cheiro do livro em papel”, que consideram esse ítem essencial. Recentemente tive que comprar um livro (infelizmente, nem todos estão no formato digital “ainda”) que me deixou com dor- de- cabeça pelo seu forte cheiro à química, não sei se de cola ou outra coisa. Cheiro? Cheiro a mofo, à poeira. Prefiro os tabletes inodoros e o cheiro dos pinheiros, vivos, perfumando o ar.

10. Textura. Há tabletes que simulam a textura de papel e que reproduzem o barulhinho  do folhear das páginas.

11. Tinta. A qualidade da tinta digital é idêntica a dos livros, a qualidade das letras num tablete não deixa nada a desejar.

12. Envio grátis. Eu posso comprar e-books do mundo inteiro sem pagar frete. O custo de envio para o exterior de livros de papel são tão abusivos, que é inviável. Você pode ter o título que quiser, no idioma que escolher, ao alcance de um clique.

A única desvantagem do tablete? Esgotar a bateria, mas como todos já estamos acostumados a carregar telefones celulares, faça o mesmo com o tablete e não haverá problema.

O novo provoca uma certa “estranheza”. Alguém aqui sente falta dos discos- de- vinil, das fitas- cassete ou da máquina- de- escrever, por exemplo?

O livro de papel um dia será coisa do passado. As crianças do futuro nos acharão uns inconsequentes por termos destruído tanta mata virgem para fabricar papel. A leitura não pode ter um preço tão alto. Vira a página!

“A náusea”, Jean- Paul Sartre

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Algo me aconteceu, não posso continuar duvidando. Veio como uma doença, não como uma certeza ordinária nem como uma evidência. Instalou- se pouco a pouco, eu me senti estranho, algo incomodado, nada mais (…). E agora cresce. (“A náusea”, p. 17)

Jean- Paul Sartre ( Paris, 21/06/1905 – Paris, 15/ 04/ 1980) existencialista e marxista- humanista (correntes de pensamento que também sou simpatizante) marido da filósofa Simone de Beauvoir.

Fumava cachimbo, o que produziu o escurecimento dos seus dentes. Sartre fumava, mas não só: também experimentou uma droga extraída de uma espécie de cactus chamada “mescalina”; aconteceu em 1929, mesmo ano em que conheceu a sua futura esposa Simone. A mescalina é um alucinógeno, causa efeitos como a sinestesia, é estimulante, provoca gargalhadas, potencializa os sentimentos, a introspecção, mas também tem efeitos negativos muito ruins como a depressão, paranóias, insônia, náuseas, alucinações, pânico, entre muitos outros. “A náusea”! Sartre contou numa entrevista, que ao consumir essa droga, viu caranguejos e que eles o perseguiam. Em “A Náusea”, ele fala dos tais caranguejos e outros seres (não usem drogas, crianças!):

Deixei cair meu braço ao largo das costas da zeladora e logo vi um jardim com árvores baixas e largas dos quais se penduravam imensas folhas cobertas de pelos. Formigas, centopéias e larvas corriam por todas partes. Havia animais mais horríveis ainda: seus corpos eram uma fatia de pão de forma tostada colocadas debaixo de pombas; caminhavam de costas com patas de caranguejo. (p. 101)

As drogas foram consumidas também por outro escritor que defendia seu uso para fins de “expansão da mente”, Aldous Huxley, contemporâneo de Sartre, além de ser viciado, era defensor do consumo de LSD (não foi boa ideia, morreu por causa dela).

Para estimular a sua imaginação, use o amor, a literatura, a música…o próprio Sartre cita Ella Fitzgerald, sugerindo o poder de cura que a música pode exercer sobre as pessoas. Enquanto tocava no bar “Some of these days”, Roquentin sentiu- se melhor, a Náusea o abandonou:

Não sabemos se Sartre escreveu “A náusea” baixo o efeito de algum alucinógeno, mas o fato é que o livro é impressionante. Impressiona por causa das perfeitas descrições do personagem Antoine Roquentin passando mal, são vertiginosas. Roquentin, um escritor de 30 anos, depois de viajar muito pelo mundo, decide morar na cidade (imaginária) de Bouville, de repente começa a sentir- se estranho e começa a agir, a mudar de hábitos e pensamentos por causa do que sente. Enxerga as pessoas deformadas, tem vertigens, a sua percepção da realidade e das pessoas muda. É um homem solitário, seus únicos interlocutores são Anny, sua ex- namorada, uma zeladora a qual mantêm relações sexuais e o Autodidata, que é um personagem sem nome próprio, mas sabemos que é um leitor ávido, ele lê pela ordem alfabética dos autores na biblioteca da cidade; homossexual e pederasta; Roquentin o vê tocando meninos na biblioteca, acabou aí a amizade e o Autodidata foi expulso da biblioteca.

Com os sentimentos à flor- da- pele, Roquentin passa a vivenciar sensações físicas que mudarão o sentido da sua vida. É o Existencialismo de Sartre gritando, pedindo a liberdade do “ser”. O homem só é homem com o seu conjunto de emoções, com suas idiossincrasias, a vida só tem sentido assim.

Nunca senti como hoje a impressão de carecer de dimensões secretas, de estar limitado no meu corpo, aos pensamentos leves que sobem como bolhas. Construo minhas recordações com o presente. Em vão trato de alcançar o passado: não posso escapar. (p. 62)

Sartre fala sobre uma verdade curiosa: a vida é menos interessante que a ficção. O dia a dia mata a aventura, além de tudo ser muito parecido, sem novidades. Quando a pessoa vive, não acontece nada. A decoração muda, o povo entra e sai, e isso é tudo. Nunca há começos. Os dias se sucedem aos dias sem tom nem som, numa soma interminável e monótona. Mas ao contar a vida é diferente, tudo muda; (p. 71) Todas as dificuldades dos personagens “parecem ser mais preciosas que as nossas, estão douradas pela luz das paixões futuras.” (p. 72) E pelo fim. Sabemos qual será o fim da história, controlamos o futuro.

“A Náusea”, que primeiro foi chamado de “Melancolia”, foi o primeiro romance filosófico de Sartre, começou a escrevê- lo em 1931 com 26 anos, a versão definitiva saiu em 1938.

Sou livre: não me resta nenhuma razão para viver, todas as que provei soltaram- se já e eu não posso imaginar outras. (p. 248)

Sartre, Jean- Paul. La Náusea, Madrid, Alianza Editorial, 2011.

71ª Feira do Livro de Madri 2012

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No dia 25 de maio começará mais uma edição da Feira do Livro de Madri, que acontece no Parque del Retiro, região central da capital espanhola.

O fotógrafo espanhol Chema Madoz (Madri, 1958) criou o cartaz da feira esse ano. Ele tem um trabalho importante e muito premiado na área da fotografia conceitual. O fotógrafo utiliza objetos do cotidiano associando significados que vão além do seu uso habitual. Para o cartaz da Feira do Livro, ele utilizou os balões das histórias em quadrinhos saindo dos livros para dar a ideia de que os livros falam, dialogam com o leitor, uma explosão de vozes. “Para mim, os livros sempre foram uma caixa- negra da história do pensamento, que vão desenhando, com o passar do tempo, um magnífico mosaico da humanidade.” E acrescenta: “a leitura proporciona colocar- te em um ponto em que você pode ver a realidade através dos olhos do outro e isso sempre me pareceu um exercício interessante e enriquecedor.” Curiosamente, um dos livros preferidos de Madoz é “Memórias póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis.

O país convidado desse ano é a Itália, espera- se grandes nomes da literatura italiana contemporânea, além de uma homenagem especial ao escritor italiano Antonio Tabucchi, falecido recentemente.

Notinha feliz

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A partir de hoje ganhamos uma parceira de peso: a editora espanhola Planeta, que é uma multinacional com sede também no Brasil. Espero que a parceria seja frutífera e que possamos fazer muitos sorteios e promoções de livros para os leitores do Falando em Literatura.

Sabes algo? Nunca deixei de te amar

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A minha janela lateral amanheceu assim pintada de giz, que a primeira chuva (provavelmente) vai levar. Uma súplica, um pedido, um grito de desespero. Quem alguma vez não sentiu vontade de desenhar paredes? Todos somos/fomos meninos e meninas atrás do muro, mas que acabamos sendo espectadores da nossa própria dor. Sorte de quem consegue pular o muro.

“Sabes algo? Nunca deixei de te amar”

Os heterônimos de Fernando Pessoa

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Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.

(“O guardador de rebanhos”, Alberto Caeiro)

Fernando Pessoa (Lisboa, 13/ 06/1888- Lisboa, 30/11/ 1935) considerado um dos maiores poetas do mundo, era tão vasto, que não podia ser um só,  então ele criou alguns heterônimos , que são autores fictícios para assinar seus poemas. Seus heterônimos têm personalidade própria, como se realmente fossem autores independentes. Os personagens criados por Pessoa são Ricardo Reis, Alberto Caeiro e Álvaro de Campos.

Fernando Pessoa na Baixa de Lisboa, onde costumava passear e tomar um café na cafeteria “A Brasileira” no Chiado, onde hoje existe uma estátua na mesa que costumava sentar. Foto: Wikipédia

Fernando Pessoa criou biografias para seus heterônimos. Alberto Caeiro era um camponês sem estudos, mas com um vasto mundo interior, filosófico, do signo de leão, um pensador da vida. Na sua simplicidade, era claro e profundo na sua observação do mundo. Morreu de tuberculose. Em “O guardador de rebanhos” (1911- 1912), um longo poema atribuído a Alberto, onde ele descreve- se assim:

Se quiserem que eu tenha um misticismo, está bem, tenho-o.
Sou místico, mas só com o corpo.
A minha alma é simples e não pensa.
O meu misticismo é não querer saber.
É viver e não pensar nisso.
Não sei o que é a Natureza: canto-a.
Vivo no cimo dum outeiro
Numa casa caiada e sozinha,
E essa é a minha definição.

Ser um só poeta já é difícil, mas o genial Fernando Pessoa conseguiu administrar seus quatro “eus” com maestria, talvez ele mesmo, talvez não, quem sabe? Como nos contou o próprio Fernando em Autopsicografia, O poeta é um fingidor/ Finge tão completamente/ Que chega a fingir que é dor/ A dor que deveras sente.

Fernando Pessoa era fluente na língua inglesa, escrevia e lia nesse idioma. Foto da contra- capa do livro “A First Latin Course”, onde ele coloca a data em números romanos. Esse livro fazia parte da sua biblioteca pessoal, esse e outros livros estão hoje na Casa- Museu Fernando Pessoa, em Lisboa, onde há vasto material sobre o escritor.

Deixo aqui a estrofe final do poema de Alberto Caeiro, com toda a verdade das coisas simples, “O guardador de rebanhos”:

XLIX

Meto-me para dentro, e fecho a janela.
Trazem o candeeiro e dão as boas noites,
E a minha voz contente dá as boas noites.
Oxalá a minha vida seja sempre isto:
O dia cheio de sol, ou suave de chuva,
Ou tempestuoso como se acabasse o Mundo,
A tarde suave e os ranchos que passam
Fitados com interesse da janela,
O último olhar amigo dado ao sossego das árvores,
E depois, fechada a janela, o candeeiro aceso,
Sem ler nada, nem pensar em nada, nem dormir,
Sentir a vida correr por mim como um rio por seu leito,
E lá fora um grande silêncio como um deus que dorme.

Livros em espanhol

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Você lê em espanhol?

Eu gostaria de fazer algumas promoções aqui no blog, sorteios de livros, mas como moro na Espanha e tenho dificuldades para comprar literatura em português, teria que ser em espanhol.

Quixote e Sancho Pança, personagens do escritor espanhol Miguel de Cervantes.

Leitores habituais e visitantes, vocês gostariam de ganhar um livro em espanhol? Deixem seus comentários, assim saberei se há interesse ou não.

Resenha: “O leitor de Julio Verne”, Almudena Grandes

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“O leitor de Julio Verne” (original “El lector de Julio Verne”) recém lançado na Espanha, é uma história que acontece na Serra Sul da Andaluzia em 1947, num povoado de pouco mais de 3 mil habitantes, Fuensanta de Martos, a terra natal dos meus sogros.

 Fuensanta de Martos vista de uma das montanhas onde se escondiam os guerrilheiros fugitivos da ditadura. Todos os direitos reservados, proibida a reprodução sem prévia autorização®

A história é quase totalmente verídica, a maioria dos personagens são reais, alguns inventados, mas baseados em gente real. Almudena Grandes (Madri, 7 de maio de 1960) conta sobre o período de pós- guerra na Serra Sul da Andaluzia: comunistas X ditadura do General Francisco Franco. A Espanha havia perdido a democracia, os comunistas, socialistas, republicanos, homossexuais e ateus, eram perseguidos, torturados, presos, fuzilados na época de Franco. A oposição era considerada “bandoleira”, gente fora da lei, pois criam uma guerrilha de resistência contra a ditadura. Os comunistas revidavam e também matavam os guardas civis. Muitos “franquistas” eram também socialistas e republicanos, que se escondiam baixo a farda de polícia civil para preservar a vida dos seus familiares e a sua própria.

Fuensanta de Martos, Todos os direitos reservados, proibida reprodução sem prévia autorização®

O “bandoleiro” mais famoso era o “Cencerro” (Tomás Villén Roldán, Jaén, 1903) que era um político socialista perseguido pelo governo de Franco. Criou uma guerrilha mítica, tratava bem aos seus sequestrados, seus golpes financeiros eram perfeitos, sua rede espalhada por toda a província e sua habilidade para escapar da Polícia Civil o transformou numa lenda em Andaluzia, era respeitado e temido. Foi traído por um dos seus comparsas, a Polícia Civil conseguiu localizá- lo e começou a dinamitar algumas casas. Segundo o livro, não permitiu ser preso pela polícia, antes disso deu um tiro na cabeça junto com o companheiro José Crispin Pérez:

Os cadáveres de Tomás Villén Roldán e José Crispín Pérez estavam juntos, encostados na parede do fundo da caverna. Os dois abraçaram- se antes de suicidarem- se disparando um tiro na fronte com as últimas balas que lhes restavam. (p. 69)

Fuensanta de Martos, Todos os direitos reservados, proibida reprodução sem prévia autorização®

A versão oficial foi que a Polícia Civil atirou nos dois homens. Seus cadáveres foram expostos publicamente no Castelo de Locubín, e fizeram uma festa para celebrar a morte do guerrilheiro, dançaram em cima do cadáver de Crispín. Eu creio na versão do livro, a do suicídio. Cencerro tinha duas filhas, Rafaela, de 20 anos e Virtudes, de 17 anos, cavaram com as suas próprias mãos a tumba do seu pai no lugar dos enforcados, fora dos muros do cemitério. (p. 85)

“Cencerro”, o mítico guerrilheiro “Tomás Villén Roldán”

O romance é narrado sob olhos de Nino (Antonino Pérez, o “Canijo”, apelido em espanhol para gente muito baixinha, na vida real seu nome é “Cristino”) um garoto de 9 anos, filho de um guarda- civil que herdou o mesmo nome. A família morava no quartel de Fuensanta de Martos. Nino, sua irmã de 5 anos, Pepa, e a irmã mais velha, Dulce, sofriam muito porque ouviam os sons da tortura que acontecia frequentemente no quartel. Depois das torturas, a mãe e as duas crianças tinham que conviver com as esposas e filhos dos torturados, seus vizinhos. Sentiam vergonha, pena: Mãe saiu em cima a hora, e nos levou à igreja quase correndo, para não ter que cumprimentar nenhum conhecido. (p. 83)

O livro está repleto de mostras de machismo, numa Espanha bruta, violenta, sem lei. As mulheres que tiveram seus maridos mortos ou presos pela ditadura criavam seus filhos sozinhas, subsistiam vendendo ovos, trançando palha, mas essas atividades eram ilegais para elas e muitas vezes eram presas, violadas e torturadas. Essa parte da história é real, assim aconteceu.

Almudena conta como surgiu a ideia desse livro. Ela, o marido e Cristino (Que é conhecido pelos meus sogros como “Tino”) viajaram de carro em 2004 para o Marrocos. A escritora chorou muito quando viu aquelas paisagens, porque sua avó e bisavó tiveram que fugir da guerra da Espanha com filhos pequenos e foram a pé até o Marrocos. O clima emotivo propiciou confissões entre os viajantes e Cristino acabou contando a sua história de infância em Fuensanta de Martos.

Fuensanta de Martos, Todos os direitos reservados, proibida reprodução sem prévia autorização®

Nino era baixinho, seus pais achavam que ele não poderia ser guarda civil pela baixa estatura e providenciaram que aprendesse datilografia para poder fazer trabalhos administrativos no futuro. “As Loiras”, uma família de mulheres vítimas da ditadura, que perderam pai, maridos e irmãos na guerra, eram inimigas anti- franquistas, mas eram elas que detinham a cultura e o conhecimento. Dona Elena, professora e viúva de um médico preso e morto por ser ateu, foi a tutora de Nino às escondidas. Foi ela que mostrou o mundo da literatura ao menino, que emprestou toda a sua coleção de Júlio Verne ao garoto e que lhe ensinou datilografia.

Cristino Pérez saiu do “pueblo”, conseguiu fugir do seu destino quase certo de ser também polícia civil como o seu pai. Com muita dificuldade, conseguiu entrar na faculdade de Psicologia. Filiou- se ao partido comunista de Córdoba, foi preso depois de quase 20 anos de militância, quando já era professor universitário na área de Psicologia, ainda hoje é catedrático na Universidad de Córdoba.

Veja a biografia de gente valente (em espanhol), gente que deu a vida por uma causa, pela liberdade que a Espanha só conseguiu depois da morte do ditador Francisco Franco em 20 de novembro de 1975.

Almudena Grandes, foto de divulgação: www.almudenagrandes.com

“O leitor de Julio Verne” não é uma obra- prima da literatura, não tem grandes recursos literários, mas a história é boa, de leitura fácil, provavelmente será um best- seller na Espanha. Esse livro ainda não foi traduzido para o português, o que deve acontecer em breve.

Grandes, Almudena. El lector de Julio Verne. Barcelona. Tusquets, 2012.

Ariano Suassuna em Feira de Santana

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Não sei quantas vezes li “O Auto da Compadecida”, mas foram muitas. Uma das obras mais incríveis e divertidas da literatura brasileira, escrita pelo genial Ariano Suassuna, que vai estar em Feira de Santana no dia 6 de maio, às 18:00 hs, no Centro de Cultura Amélio Amorim. Ele vai ministrar uma “aula- espetáculo”, que faz parte da Celebração das Culturas dos Sertões promovido pela Secretaria de Cultura do Estado da Bahia.

No Teatro Municipal de Feira de Santana também vi repetidas vezes a encenação do “Auto da Compadecida”, ao recordar algumas cenas me provocam risos até hoje. É uma obra super recomendada para adolescentes, é uma isca, uma excelente “armadilha” para aprisioná- los no mundo da literatura.

Ariano Suassuna (João Pessoa, 16 de junio de 1927) é defensor da cultura nordestina. Ele vai falar sobre a sua infância e juventude em Cariri, no Ceará.

Foto: Jangadeiro online

O bacana é que vai ter transmissão ao vivo e nós que moramos no exterior ou em outros estados do Brasil vamos poder assistir no site da Irdeb.

Uma flor, um livro…Dia Internacional do Livro

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Hoje é um dia romântico e poético na Espanha: no dia Internacional do Livro e dia de São Jorge, a tradição é trocar flores e livros. Os amigos, namorados, maridos dão uma rosa às mulheres, e em troca, elas presenteiam livros aos meninos (um livro e uma rosa seria perfeito!).

Esse dia começou a ser comemorado com a intenção de fomentar a leitura no mundo todo. É um dia jóia para comprar livros, pois as livrarias geralmente fazem boas promoções. O dia 23 de abril não foi aleatório: no dia 22 faleceu Cervantes ( foi enterrado no dia 23) e Shakespeare no dia 23.

Você que não costuma ler muito, que tal começar hoje nesse dia tão especial?!

Elogio de Paris, Victor Hugo

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Viver em paz é, por acaso, tão absurdo? (p. 69)

O salão da princesa Mathilde, de Giuseppe de Nittis, 1883.

Victor Hugo (Besançon, 1802- Paris, 1885) era escritor de prosa e verso, dramaturgo, ensaísta, político, artista visual, ativista dos direitos humanos e escritor de destaque no Romantismo francês. O seu livro mais conhecido é “Os Miseráveis” (1862). Os críticos dizem que a sua obra é essencial para a compreensão do século XIX.

O ensaio “Elogio de Paris” é um texto que foi encomendado para a Exposição Universal de Paris de 1867. É uma declaração de amor à Paris, mas sem ocultar todas as suas mazelas e guerras ao longo de sua história, “Paris cresceu entre a guerra e a fome” (p. 31). O passado hostil e violento sofreu uma purificação, foi queimado com a Revolução Francesa. Victor Hugo mostrou ser um profundo conhecedor da cidade, contando sobre personalidades, lugares e fatos às vezes chocantes, às vezes curiosos. Victor Hugo contou que foi em Jerusalém que um mártir disse pela primeira vez a famosa frase, “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”(p. 72) que foi usada como lema da Revolução Francesa. Ele defende o pensamento, a Filosofia como meio de crescimento e repudia a guerra. Ele profetiza que Paris será essa grande nação que servirá de modelo de paz e civismo. Será algo mais que uma nação, será a civilização. (p.18) Um continente fraternal, tal é o futuro. (p.22)

Abaixo uma pequena seleção de fatos e frases interessantes do livro:

- “Paris é um microcosmo da história universal”. (p. 24)

- Luis IX construiu igrejas, Santa Catalina, entre outras, a pedido dos sargentos de armas, onde a assembléia de barões e bispos se converteu em parlamento, e onde Carlomagno, na sua sala eclesiástica, perto de Saint- Germain- des- Prés, proibiu aos religiosos de matar. 

Celestino II foi ali nessa escola baixo a tutela de Pierre Lombard. O estudante Dante Alighiere hospedou- se na rua Fouarre… (p. 31)

- Os impostos eram tão excessivos que o povo tratava de contagiar- se com a lepra para não pagá- los. (p. 33)

- Tudo o que está feito já está morto se nos devolve vivo como ensinamento. Mas, sobretudo, não escolham. Contemplem à sorte. (p. 34)

- (…) em 1650, o primeiro presidente do Parlamento de Paris, Gilles le Maistre, montado numa mula, seguido por sua mulher em uma carroça, e sua criada numa burra, para ver pela tarde enforcar o povo que havia sido julgado pela manhã. 

(…) abaixo do nível do Sena, um calabouço chamado “A Ratoeira”, por causa dos ratos que roíam vivos aos prisioneiros”. (p. 35)

- Que precipício é o passado! Um descenso lúgubre! Dante teria pensado. (p. 51)

- A função de Paris é dispersar ideias. Sacudir sobre o mundo um inesgotável punhado de verdades. (p. 75)

- Rabelais, Molière y Voltaire, a trindade da razão, que nos perdoem a frase, Rabelais, o Pai, Molière, o filho, Voltaire o espírito, essa triple gargalhada, alegre no século XVI, humana no século XVII, cosmopolita no século XVIII, é Paris.” (p. 76)

- Um dia, Paris já não quis aos soldados, daí surgiu a cura.” (p. 77)

O que completa e coroa Paris é o literário. A luz da razão é necessariamente a luz da arte. Paris ilumina en dois sentidos: por um lado, a vida real, por outro a vida ideal. Por que esta cidade vive imersa no belo? Porque está imersa no verdadeiro. (p. 80)

- Que é a Revolução Francesa? Uma vasta purificação. Havia uma peste: o passado. A fogueira queimou esta podridão. (p. 91)

Um livro para entender porquê Paris é Paris. Victor Hugo escreveu esse texto na Hauteville House, casa onde viveu durante o seu exílio (1856- 1870), em Saint- Pierre- Port, Guernesey, Inglaterra.

Hugo, Victor, Elogio de París, Gadir, Madrid, 2011.

O leitor de Julio Verne, Almudena Grandes

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Este livro acabou de sair do forno, “O leitor de Julio Verne” ( original em espanhol: “El lector de Julio Verne”) tem algo muito especial: é uma história que acontece na terra dos meus sogros, na serra sul de Andaluzia, Fuensanta de Martos, em Jaén, Andaluzia. A obra é baseada em fatos reais. Almudena Grandes (Madri, 1960) tive a oportunidade de conhecê- la pessoalmente na Feira do Livro de Madri do ano passado, é uma escritora conhecida e respeitada na Espanha.

Almudena Grandes

Fuensanta de Martos

A história é sobre um menino, Nino , filho de um guarda civil que morava no quartel de Fuensanta de Martos na época da guerra civil espanhola. Esse quartel está a um quarteirão da casa dos meus sogros. As paredes do edifício eram tão finas que as crianças que moravam ali ouviam tudo, ouviam os presos sendo torturados, gritando, então elas começavam a cantar. O livro é baseado na vida de Cristino, que é amigo da escritora e que a levou até Fuensanta, e também sobre os bandoleiros que andavam em Fuensanta naquela época. Na verdade eles eram comunistas que se refugiaram no “pueblo”, pois eram perseguidos pela ditadura do general Franco. A escritora e o próprio Cristino (Nino) falando sobre o livro:

Meu sogro me contou que foi uma época muito difícil em Fuensanta de Martos. Não chegavam alimentos, passavam necessidades, tudo era escasso. Faziam pão com os figos que havia ali na região. Depois de ler eu conto mais pra vocês, estou super curiosa!

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