Os números de 2011

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2011 deste blog.

Aqui está um resumo:

A sala de concertos em Sydney, Opera House tem lugar para 2.700 pessoas. Este blog foi visto por cerca de 40.000 vezes em Se fosse um show na Opera House, levaria cerca de 15 shows lotados para que muitas pessoas pudessem vê-lo.

Clique aqui para ver o relatório completo

Amor de perdição, Camilo Castelo Branco

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Considero- te perdida, Teresa. O sol de amanhã pode ser que eu o não veja. Tudo, em volta de mim, tem uma cor de morte. (p.123)

Se você gosta de narrativas de amor tipo “Romeu e Julieta”, de histórias de amores impossíveis, você vai gostar desse livro, que está claramente inspirado na obra mais famosa de Shakespeare. Essa é uma edição portuguesa da editora Leya, comprada na Fnac de Lisboa:

Não posso ser o que tu querias que eu fosse. A minha paixão não se conforma com a desgraça. Eras a minha vida: tinha a certeza de que as contrariedades me não privariam de ti. Só o receio de perder- te me mata. (Simão, p. 123)

Escrita em 1862, Amor de Perdição conta a história de amor entre Teresa e Simão, filhos de duas famílias inimigas, eles tinham só 16 anos quando surgiu o amor . Tudo acontece em Viseu, Portugal, no século XVIII, na época em que os casamentos ainda eram feitos por conveniência. Simão Botelho, um jovem universitário rebelde, conflitivo, filho de um comendador, apaixonou- se pela vizinha Teresa de Albuquerque, uma menina que só tinha duas opções: casar com seu primo Baltasar Coutinho ou ir para um convento, só que ela também apaixona- se pelo vizinho rebelde. Teresa contrariou a vontade do pai, Tadeu de Albuquerque, e decidiu não casar, foi para o convento. Essa parte da história chega a ser cômica: as freiras que têm vocação para tudo, menos para a vida religiosa, surpreendem e enojam Teresa, pois vivem envoltas em fofocas, são adeptas do vinho como “remédio estomacal”,  num ambiente cheio de intrigas e línguas viperinas, nada a ver com a vida cheia de virtudes, caridosa e espiritual que sempre ouviu dizer que havia nos conventos.

Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco

(Lisboa, 16/03/1925- São Miguel de Seide, 01/06/1890) 

“Amor de perdição” é um romance romântico, que o autor contou com conhecimento de causa, ele mesmo viveu um amor impossível, apaixonou- se por Ana Plácido que era casada com o brasileiro Pinheiro Alves. Camilo rapta Ana, mas o adultério naquele tempo era crime e os dois foram presos no Porto, onde ele escreveu o romance Memórias da cárcere. Camilo e Ana ficaram juntos, tiveram muitos filhos, daí a produção tão intensa do escritor, que teve que trabalhar muito para sustentar a família numerosa. Camilo Castelo Branco foi o primeiro escritor português a viver exclusivamente de literatura.

O que me resta do passado é a coragem de ir buscar uma morte digna de mim e de ti. Se tens força para uma agonia lenta, eu não posso com ela. (p. 123)

Simão amava Teresa com toda a sua alma e estava disposto a morrer por ela, não mediu nenhuma consequência, foi extremamente valente, enfrentou o pai da moça (Um déspota) o prometido de Teresa e com a impossibilidade quebrando seus desejos. Foi preso por um assassinato, ganhou o ódio dos seus pais, ficou sem família, mas sentia- se digno e forte pra enfrentar a morte, já que a vida lhe privou do seu amor.

O destino há- de cumprir- se…Seja o que o Céu quiser. (p. 126)

O ferreiro Joâo da Cruz e sua bela filha Mariana, ajudaram a Simão em seus encontros com Teresa, com dinheiro, além de o terem ajudado a curar- se de um tiro que sofreu numa emboscada com o primo prometido de Teresa e que continuaram ajudando Simão enquanto esteve preso, já que a sua família não quiser saber mais nada dele. A mãe, D. Rita Preciosa, foi impedida pelo marido corregedor a ajudar o filho que havia sido condenado à forca, em sua fúria dizia que a “lei era para todos”. Antonio da Veiga, um tio- avô octagenário usou um argumento muito convincente que obrigou ao corregedor ir ao socorro do filho. Simão era muito forte e mantinha- se forte, mesmo com a condena á forca, mas desabou quando teve certeza que Mariana, a linda e doce Mariana, chorava e queria morrer caso Simão morresse. Por um momento ele esqueceu de Teresa e chorou pelos tristes desígnios da vida e do amor, falou do amor de Teresa e Mariana:

Uma, morrendo amada, outra, agonizando, sem ter ouvido a palavra “amor” dos lábios que escassamente balbuciavam palavras de gratidão. (p. 147)

Simão ficou sem ver Mariana durante sete meses e Teresa estava num convento n oPorto. Simão começou a ficar muito confuso e pensava mais em Mariana que em Teresa, e quis partir a cabeça na parede. Mariana ali, sempre a seu lado, e ele não a via. Ele e Mariana sentiam a mesma dor do amor impossível. Ele podia ter ficado com Mariana que era linda e completamente apaixonada por ele, mas quem manda no coração?

Simão preso e Teresa definhando no convento do Porto durante 7 meses, estava doente, tísica e à beira da morte. Seu pai disse que assim era mais digno do que ter desonrado a família. Teresa escreve uma carta belíssima a Simão, romântica até não poder mais, não vou colocar os trechos mais bonitos para vocês ficarem com vontade de ler:

“Que mal fariam a Deus os nossos inocentes desejos?!… Por que não merecemos nós o que tanta gente tem?! (…) O pior sãos as saudades. (…) Ao menos morrer é esquecer.” (Teresa em carta para Simão, p. 153)

Simão envia uma carta de volta, suplicando que Teresa viva, que se agarre ao último fio de vida, pois ele ainda tem esperança de que irão ficar juntos. Será que ficaram? Vou parar de contar, agora é com vocês!

Só no final do livro que descobrimos que o narrador é o sobrinho de Simão, filho do seu irmão Manuel. Leitura super recomendada, o livro não é nada monótono, tem um ritmo bem legal, emocionante e escrito num português luso rico, com os diálogos “de época”, mas muito naturais, entramos na história e passamos a fazer parte dessa linda e extremamente triste história de amor.

A desgraça afervora ou quebranta o amor? (p. 197)

Eu não escrevo mais poemas

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Sempre existe uma imagem para todos os nossos pensamentos:

A menina no bosque, Vincent Van Gogh

Eu não escrevo mais poemas, mas esse surgiu agora na minha cabeça, prontinho:

A laranjeira

A laranja tão ácida desprezei.

Cerrei meus olhos de dor,

Joguei as sementes no vento,

que a terra ávida tragou.

Caminhei para lugar nenhum, tropecei.

Caí na sombra daquela árvore que plantei

(ao acaso)

Outros colhiam a fruta doce,

que eu não provei.

Madrid, 21-01-2012

A primeira resenha do ano

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                        A ideia do suicídio é um potente meio de conforto: com ela superamos muitas noites más. (Friedrich Nietzsche)

Um dos livros mais complicados que li na minha vida, não porque seja uma leitura difícil de entender, rebuscada, mas no sentido da temática: a depressão e o suicídio.

O romance autobiográfico (mas não totalmente, pois os nomes de pessoas e lugares foram modificados, o termo mais adequado seria “Roman à clef”) da poetisa americana Sylvia Plath (Boston, 27/10/1932 – Primrose Hill, Londres, 11/02/1963), “A redoma de vidro” (em Portugal “A Campânula de Vidro” e na Espanha “La campana de cristal”) publicado pela primeira vez em 1963 sob o pseudônimo de Victoria Lucas, narra a sua própria história em duas épocas: num período em que foi estagiária numa revista feminina em Nova York e durante a sua depressão/distúrbio bipolar e tentativa de suicídio em Massachusetts.

A personagem principal, Esther Greenwood, uma estudante universitária brilhante, que conta as suas aventuras e noitadas por Nova York com suas amigas Doreen e Betsy, pessoas que admira, mas que não se sente identificada; também não se identifica com o estilo de vida nova yorquino, que não a estimula, a aborrece, o que ela deseja mesmo é ser escritora. Ela conta sobre o drama da intoxicação alimentar que sofreu num jantar da revista em que estagiava, da tentativa de estupro que sofreu, do seu desejo de ter sua primeira experiência sexual, do medo da gravidez, do casamento e de uma futura vida como esposa e mãe. Tinha medo de casar com a pessoa errada. Em muitos momentos cita seu namorado Buddy Willard, um futuro médico que contraiu tuberculose e que depois descobriu ser um hipócrita.

Quando voltou para a casa dos seus pais em Massachusetts para passar o verão, sua mãe  deu a notícia de que não foi aceita para um curso de redação que ela desejava muito, ficou muito decepcionada e começou a fazer reflexões sobre o seu futuro, queria fugir dos estereótipos impostos às mulheres, decidiu que iria escrever um romance, mas admitiu que não tinha experiência para escrever um livro. Começou a ter dificuldades para dormir e a partir daí descreve todos os processos labirínticos da depressão, que ela descreveu com a metáfora da “redoma de vidro”, como se estivesse em uma vida paralela, presa, não podia sair. Esther foi diagnosticada como doente mental e começou a levar eletrochoques. Ela decidiu que não queria mais passar por isso, seu estado piorou, e surgiram as ideias suicidas, começou a escolher a melhor forma de sair da vida. Tentou o afogamento, cortar os pulsos e a intoxicação com ansiolíticos falida. Ela consegue recuperar- se em outra clínica diferente da primeira com a ajuda financeira de Philomena Guinea, escritora e sua mentora.

O suicídio de Sylvia Plath acontece aos 30 anos, quando já era mãe de dois filhos e separada pelas infidelidades do poeta inglês Ted Hughes. A poetisa teve o cuidado de vedar a porta do quarto em que os filhos pequenos dormiam para que o gás não os matasse, deixou a janela aberta, leite e biscoitos. Na foto abaixo, Sylvia e os filhos Frieda e Nicholas:

Foto de Sylvia Plath e o marido Ted Hughes, que trocou Plath pela também poetisa Assia Wevill, que morreu da mesma forma que Sylvia, suicidou- se com gás, que também matou a sua filha de apenas 4 anos.

Sem dinheiro, sem sucesso profissional e amoroso, adoece outra vez e usa gás de cozinha para suicidar- se. Possivelmente Sylvia sofria de transtorno bipolar, fosse hoje, poderia ser facilmente controlado. O drama da depressão foi herdado pelo filho caçula de Plath, Nicholas, que suicidou- se no Alasca em 2009, não era casado e nem tinha filhos. Era um solitário professor universitário que não conseguiu vencer a depressão. Na foto Sylvia e Nicholas, ambos com um triste final:

Esther ou Sylvia não conseguiu encontrar o seu lugar no mundo, não conseguia ser o que era e não aguentou com o peso da vida imposta, acabou prisioneira na sua caixa de vidro, onde tudo via, sabia, sentia, mas não conseguia encontrar a porta de emergência, perdeu- se em si mesma em busca de uma perfeição impossível.

Está sendo produzido agora o filme baseado em “A redoma de vidro” (“The Bell Jar”). Julia Stiles é a produtora e protagonista da história. Uma nova versão para o filme rodado em 1979, estrelado pela atriz Marilyn Hasset.

Último dia de 2011

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Não deveria começar um post com “não” e nem “infelizmente”, mas infelizmente esse não foi o melhor ano da minha vida e está terminando de uma forma estranha, uma triste felicidade: triste, porque o marido sofreu um acidente na véspera de Natal e passamos dias difíceis, ainda estamos passando, mas a fase pior já passou e agora ele está se recuperando; feliz, porque poderia ter sido pior, o importante é que ele já está em casa. Mas de todas as formas, é um final que ninguém espera ou gostaria de ter, um final acidentado fechando esse dezembro e esse ano de 2011.

Terminei de ler o livro de Sylvia Plath, “A redoma de vidro” (em espanhol “La campana de cristal”), mas com os últimos acontecimentos, não tive tempo escrever uma resenha, ele vai entrar para as “Leituras 2011″, mas o post só vai entrar em  em 2012.

Aproveito para agradecer aos visitantes silenciosos e os poucos amigos que me enriqueceram com seus comentários, opiniões e também correções.

A lista de leituras do ano de 2011 ficou assim:

Dezembro

22. “La campana de cristal”, Sylvia Plath, Barcelona, Edhasa, 1997. 381 páginas

( Post sobre o livro em breve)

Novembro

21. Falero-Galindo, Luis. Fundido en blanco, Huelva, Diputación Provincial de Huelva, 2011. 93 páginas.

Post sobre o livro

20. Saramago, José. Claraboia, Lisboa, Caminho, 2011. 398 páginas

Post sobre o livro

Outubro

19. Proust, Marcel. Os prazeres e os dias. Editorial Estampa, Lisboa, 2010. 167 páginas

Post sobre o livro

Setembro

18. Tiburi, Marcia. Magnólia. Bertrand do Brasil, Rio de Janeiro, 2005. 249 páginas.

Post sobre o livro

Agosto

17. Allende, Isabel. El cuaderno de Maya. Plaza Janés, Barcelona, 2011. 443 páginas

Post sobre o livro

16. Reaves, K.; Grant, A.; Ode to happiness, Steidl Publishers, Germany, 2011. 30 páginas

Post sobre o livro

Junho

15. Sartre, Jean- Paul; La suerte está echada, Losada, Buenos Aires, 2004. 155 páginas

Post sobre o livro

14. Coura, R., Neto, A. R.,  Imagens & Poemas, UFPB, Paraíba, 2008.

Post sobre o livro (com vídeobook)

Maio

13. Gorz, André. Carta a D.: História de un amor. Paidós, Barcelona, 2008. 110 páginas.

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12. Caso, Angeles. Contra el viento. Planeta, Barcelona, 2010. 268 páginas

Post sobre o livro

Abril

11. Ivo, Lêdo. Calima. Vaso Roto, Barcelona, 2011. 313 páginas

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Março

10. Assis, Machado. O alienista. Alma azul. Coimbra, 2005. 92 páginas.

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9. Goethe, Las penas del joven Werther. Austral, Madrid, 2007. 174 páginas

Post sobre o livro.

Fevereiro

8. Bach, Richard. Juan Salvador Gaviota, Zeta, Barcelona, 2010. 108 páginas.

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7. Rilke, R. M., “Cartas a um poeta”, Portugália, Lisboa, 2009. 101 páginas.

Post sobre o livro

6. Cunha, D.M., O ar em seu estado natural: textos sobre letras do Clube da Esquina. CBJE, Rio de Janeiro, 2010. 75 páginas.

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5. Salinger, J.D. El guardián entre el centeno. Alianza, Madrid, 2010. 279 páginas.

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4. Navarro, Julia. Dime quién soy. Barcelona. Plaza Janés, 4ª edição, 2010. 1097 páginas.

Post sobre o livro.

Janeiro

3. Pinto, Margarida R. O dia em que te esqueci. Portugal. Oficina do Livro, 2010. 171 páginas

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2. Kerouac, Jack. Tristessa. Lisboa, Relógio D’água, 2009. 97 páginas

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1. Gullar, Ferreira. Cidades Inventadas, Lisboa, Ulisseia, 2010. 107 páginas

Post sobre o livro.

Que o ano novo traga muitas novidades e boas leituras pra todos nós! Feliz 2012!

Uma mulher apaixonada

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Eu tenho um caso de amor e ódio com o passado: adoro relembrar as coisas bonitas e num apego desesperado, tentar revivê- las de alguma forma, nem que seja num mundo imaginário ou naquele estado de semiconsciência do mundo onírico. Às vezes é muito bom, mas às vezes provoca angústia, já que o passado vive no presente de outra forma, mesmo porque já não sou a mesma, o tempo é outro, não estou no mesmo lugar, nem com as mesmas pessoas. Na verdade, o passado é relativo, pelo menos o passado que nos marca, esse também vai conosco, vive no presente, só a indiferença é o esquecimento. No entanto, não podemos deixar que o passado nos prive de conhecer novas coisas, pessoas e horizontes. O apego ao passado pode ser muito negativo, quando podemos ter muito mais benefícios e prazeres com o presente. Há que se deixar levar…

Eu tentei resistir, tentei agarrar- me às páginas cheias de mofo, guardar todos os livros da minha vida em estantes herméticas, catalogadas, resisti à todas as novidades, porque achava que o que tinha era melhor. Mas o cerco foi se fechando, o espaço foi diminuindo e eu senti a necessidade de crescer, de jogar tudo pela janela e começar de novo, de outra forma.

Comprei um tablet! E agora posso dizer que sou uma mulher apaixonada por essa nova forma de leitura, super prática, barata (inclusive gratuita) dos e-readers! Quanto tempo, espaço e dinheiro perdi com os meus livros ocupando todo meu espaço, fora que um e-book é muito mais ecológico, não sei quantas árvores mortas existem nas minhas estantes. Eu era uma defensora do livro de papel e confesso sem vergonha: fui burra!

“José e Pilar” ou “Pilar e José”?

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“José e Pilar” é um documentário de Miguel Gonçalves Mendes lançado em 2010, Fernando Meirelles é um dos produtores, no filme aparece a bela cena em que Saramago, emocionado, chora ao assistir “Blindness” em 2008. Gravado durante os anos de fevereiro de 2006 até  finais de 2008 ( o escritor faleceu em junho de 2010). Começa com a criação de uma biblioteca em Lanzarote (ilha espanhola em que residia Saramago e a esposa Pilar del Rio, jornalista espanhola). Nesse período o escritor escreveu “A viagem do elefante”, que foi interrompido com cinquenta e poucas páginas por uma doença grave, que quase o levou à morte.

O filme é chato, aborrecido, lento, sem nenhum recurso cinematográfico interessante para torná- lo mais atraente. As únicas partes realmente interessantes são as opiniões do escritor sobre a vida e a literatura, o demais sobra. Sobra a esposa que quer aparecer mais que o escritor Nobel da Literatura, sobra a esposa prepotente e manipuladora, que leva o marido idoso à estafa com viagens intermináveis e uma agenda impossível para qualquer pessoa, quanto mais uma pessoa de 84 anos naquela época.

Vemos Saramago completamente esgotado, pálido, cansado, em momentos quase não lhe saía a voz. Eu assisti ao vídeo chocada, com pena do escritor que tinha que cumprir aquela agenda criada pela esposa déspota, fria a calculista. Tão fria que não pôde interromper a sua agenda para ir ao enterro da sua própria mãe em 2007. Foi depois de MESES  à cidade de sua mãe, onde cantou no cemitério, como se fosse uma festa.

Os dois únicos netos não aparecem no filme e a filha tem uma participação mínima e faz uma reclamação sobre o tratamento que o pai recebia em Portugal e de não haver um museu sobre o seu pai em Portugal, o que é desmentido no próprio filme já que Saramago é recebido com pompa de rei em Lisboa pelo primeiro ministro José Sócrates.

A mulher oportunista casou oficialmente com o idoso Saramago, quando este parecia nem ter mais vontade própria, parecia uma marionete na mão de Pilar, que comandava e programava tudo, Saramago tinha sua vida completamente controlada por Pilar del Rio, que passa uma imagem prepotente, de uma frieza chocante e uma antipatia inerente, que contrasta com a doçura de Saramago, do frágil Saramago que aparece no vídeo. Inclusive as cartas dos leitores, era ela que abria e rasgava o que achava que não interessava antes de chegar às mãos do escritor. José parecia apaixonado e deixou-se manipular. Como ele mesmo escreveu em “Claraboia”: “Da Espanha nem bons ventos, nem bons casamentos”.

Pilar del Rio lamenta no Twitter que o documentário “José e Pilar”, não tenha sido indicado aos Oscar. Ela considera que seria um “ato poético apresentar esse filme”. Então a Academia e eu vimos filmes diferentes, pois de poesia tem muito pouco.

José Saramago podia ter passado muito bem sem esse documentário, pois ele já é imortal, sua literatura jamais vai desaparecer. O vídeo parece uma promoção a Pilar del Rio, que inclusive ganhou uma rua com seu nome na cidade natal de Saramago, Azinhaga. Ela quis mostrar nesse filme como era importante na vida do escritor, mas acho que o tiro saiu pela culatra, terminei o vídeo horrorizada com a esposa déspota, que levou Saramago aos eventos em cadeira de rodas depois da doença grave, sendo que ele nem conseguia falar. Ela mesma diz no vídeo, enquanto ele estava no hospital, que o ritmo acelerado havia trazido consequências para sua saúde e que “só por cima do cadáver dela” que isso voltaria acontecer. E foi o homem sair do hospital e voltar tudo na mesma. O dinheiro e fama foram irresistíveis demais. Ela estirou a corda até o final, até a estafa, até a morte. Isso é amor? Saramago disse que não teve férias por mais de 20 anos (quase o período inteiro junto a Pilar). Em São Paulo, já no final da sua vida, Pilar del Rio aparece tirando a pressão do marido, querendo passar a imagem de uma excelente e cuidadosa esposa. Na minha opinião, ela teria sido uma excelente esposa, ficando em sua casa, cuidando realmente do marido velho, cansado e doente, fazendo- o desfrutar dos seus últimos dias de vida, sem tanto trabalho. Ela, uma jornalista desconhecida da Espanha, que foi encontrar o escritor em Lisboa para “conhecê- lo”, não tinha entrevista nenhuma em mãos. Uma jornalista sem entrevista. O que ela foi fazer lá? Ela era quase 30 anos mais jovem que Saramago e fez com que ele seguisse seu ritmo. Sim, Pilar…era hora do Saramago “colocar uma manta nas pernas” e descansar, olhar a bela paisagem de Lanzarote ou de Lisboa, escrever e nada mais, y no seguir con tus caprichos de ‘niña’ consentida. No vídeo também aparece a criação da Fundação Saramago, que o próprio diz que “não pintava nada”, ele não podia assinar nada, perdeu o direito sobre as suas próprias coisas, Pilar passou a ter o domínio sobre todo o legado de Saramago e “amarrou” tudo muito bem para continuar vivendo do escritor mesmo depois da sua morte. A mulher de personalidade forte, dominante, que colocou o dinheiro e fama acima de tudo, como se vê no documentário.

Tirem as suas próprias conclusões. Eu achei tudo muito triste. Vejam o trailler:

Saramago durante o vídeo disse que a vida é “nascer, crescer e morrer”, ele era ateu, mas no início e fim do vídeo diz a frase: “Pilar, nos vemos em algum outro lugar”, deixando a impressão de um reencontro pós- morte. Manipulação ou contradição?

Fundido em Branco, Luis Martinez- Falero

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                                         ”O estrangeiro crê que sua memória
                                           retém ainda a imagem da sua terra
                                           e contudo
                                           o único que fica que é a pergunta:
                                           o lugar impreciso da chegada
                                          o lugar impreciso do regresso.” (p. 43)

O poeta espanhol Luis Martínez- Falero Galindo (Albacete, 1965) é doutor e professor de Teoria da Literatura na Universidade Complutense de Madrid. Sua obra poética consta de cinco livros:

* Memória do desterro (1989)

* Plenitude da matéria (1998)- Prêmio Adonáis de Poesia

* Teoría da devastação (1995)

* Palimpsestos (2005)

* Fundido em branco (2011)- Prêmio hispanoamericano de poesia Juan Jamón Jiménez 2011)

E é sobre o seu último livro, Fundido em branco (“Fundido en Blanco”), que vou falar um pouco aqui, pois é uma verdadeira obra- de- arte da poesia na atualidade. Poemas intimistas,  possivelmente confessionais ( o poeta emigrou de Albacete a Madri) mas que falam de sentimentos universais: solidão, esquecimento, saudades, medo…

Sofri um processo de identificação, como se toda aquela solidão, morte, esquecimento e saudade fossem meus. Quando uma obra te faz passar pela catarse aristotélica, que é uma espécie de purificação da alma através de um processo de descarga emocional, pode ter certeza que esse é um bom livro. A literatura pode ter essa função catártica de liberar conflitos interiores através das emoções, como também acontece em outros âmbitos artísticos como o teatro ou quando você assiste um filme dramático. Com esses poemas eu sofri esse processo, porque os tomei como meus e liberei emoções- aquelas da imigrante na Espanha, que não sabe quando vai voltar para casa- se é que algum dia vai voltar.

O livro é belo, bem escrito, original, rico em imagens e existe um capítulo justamente com esse nome: Imagens. Vozes, sombras, corpos transfigurados em silêncio, o tempo e as fissuras que ele provoca e tudo o que se perde. Resquícios de memória, “ventos que já não movem moinhos”. Aquele velho moinho, o amornamento (p.35), nem frio nem calor, mas resiste.

Eu tive a sorte de ganhar um exemplar autografado pelo poeta:

                                             Luis Martinez- Falero, outubro de 2011.

O livro pode ser comprado online na Livraria Popular .

*O primeiro desenho é de Keiko Fuentes

*O segundo desenho é de José Garrido

O livro rejeitado de Saramago: “Claraboia”

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             Claraboia: s. f. Parte envidraçada de um telhado para entrar claridade.

José Saramago (Azinhaga, 1922- Lanzarote, 2010) foi o único escritor em língua portuguesa a ganhar um prêmio Nobel de Literatura.

Veja a sua obra completa e biografia no site da Fundação José Saramago, que é transcrito literalmente na orelha da edição póstuma de “Claraboia” e que vem com uma falha ao não citar a primeira esposa, Ilda Reis, mãe de sua única filha, Violante (só cita Pilar del Rio). Saramago casou- se com apenas 22 anos de idade (1944) e o casamento durou 26 anos, até 1970. Em 1972, nasceu a primeira neta, Ana, e em 1984, seu neto, Tiago; O escritor estava com Ilda na época da escritura desse livro, e  uma das personagens, a “Claudinha”, é datilógrafa como era Ilda.

A ironia da história é que Saramago criou um personagem em “Claraboia”“Carmen”,  casada com um português, ela é uma espanhola mal humorada, mal educada, amargurada e desequilibrada emocionalmente, e que tem uma incapacidade para aprender a língua portuguesa; Saramago cita o provérbio: “Da Espanha nem bons ventos, nem bons casamentos” (p. 120), e no final, casou- se com a espanhola Pilar del Rio, 28 anos mais jovem, era uma fã que pediu para conhecer o escritor. Hoje ela faz parte da Fundação José Saramago, traduziu vários livros de Saramago para o espanhol e atualmente viaja bastante fazendo palestras, apresentações de livros e também apresentando o recente documentário “José e Pilar”, que merece um post só pra ele (em breve). A casa em que Pilar morou com o escritor nos últimos 18 anos na Espanha, virou museu. Pilar del Rio tem uma conta de Twitter, mas não é muito acessível, eu mesma fiz alguns questionamentos que ficaram sem resposta.

Na autobiografia de Saramago, obviamente contada na sua própria voz é mais interessante e e não omite nada de essencial, veja.

“Claraboia”, segundo romance de Saramago (o primeiro foi “Terra do pecado”, escrito em 1947, com apenas 25 anos, o nome original era “Viúva”, mas a editora Minerva mudou o nome)  finalizado em 5 de janeiro de 1953, foi rejeitado pelas editoras, imagino o motivo: Portugal vivia naquela época a ditadura de Salazar (1926 a 1974, uma das mais longas da história) e as ditaduras pregam “a moral e os bons costumes”, havia censura e não preciso dizer muito mais que isso. A narrativa de “Claraboia” desenvolve- se num prédio da classe média portuguesa e conta a vida de seis famílias, onde vivem pessoas aparentemente “normais”, no entanto, neles guardam os pensamentos e desejos proibidos dos vizinhos. Saramago mostra todas as suas mazelas, infelicidades, sonhos, relações matrimoniais penosas, a luta pela sobrevivência diária, e algo mais: relações incestuosas. Uma mãe que sente uma espécie de atração pela filha e duas irmãs apaixonadas entre si e que chegam ao ponto de tocar- se. O narrador, indiscreto, observa e revela os sentimentos de uma das irmãs depois de reprimir a carícia da outra: “Imóvel, de olhos fitos no teto, as fontes latejando, resistia, obstinadamente, ao despertar da sua fome de amor, também recalcada, também escondida e frustrada.” (p.188)

A espanhola Carmen e seu marido Emílio, levam uma vida matrimonial angustiosa, tal como o jornalista Caetano e Justina. Caetano é um verdadeiro sádico com a esposa, que perdeu a filha de apenas 8 anos e vive em luto eterno:

Já lhe tirara tanta coisa, amor, amizade, sossego, e tudo o mais que pode tornar suportável, e quantas vezes, desejável, a vida conjugal. Quase chegou a lamentar ter perdido tão depressa o hábito de a beijar ao entrar e sair de casa, só para o poder fazer agora.” (p. 245)

Também havia uma outra vizinha, a prostituta Lídia, mantida num apartamento pelo amante, Paulino Morais, rico e seboso.

E “Honorato”, pseudônimo que Saramago usou para esta obra, um escritor “subversivo”, esse herege, que maculou as relação familiares da conservadora sociedade portuguesa de meados dos anos 50 e foi rejeitado com seu “Claraboia”, publicado 50 anos depois, graças à “democracia” e “liberdade de expressão” (sim, com aspas); Saramago também falou de política na voz do sapateiro Silvestre, felizmente casado com a doce Mariana, ele havia sido um revolucionário socialista quando jovem, e num diálogo com Abel, jovem que alugou um quarto na casa deles, Silvestre repreende o jovem sem ideais, que vivia sem comprometer- se com nada, repassou a sua experiência:

“Aprendi a ver mais longe que a sola destes sapatos, aprendi que, por detrás desta vida desgraçada que os homens levam, há um grande ideal, uma grande esperança.” (p. 219)

As ditaduras reprimem e censuram qualquer forma de ideal de Liberté, égalité, fraternité, e quem pensa diferente, possivelmente terá problemas. Será isso que aconteceu?

O título do livro me chamou muito a atenção, Claraboia, uma espécie de telhado de vidro com a função de iluminar. Seria alguma mensagem subliminar? Quando à forma narrativa, esse livro difere do estilo saramaguiano que estamos acostumados, sem pontos nem vírgulas, onde repiração acontece naturalmente sem a intromissão de sinais gráficos. Nessa obra há um estilo gramatical muito mais acadêmico, “correto”, menos criativo e inovador que as obras escritas posteriormente.

Algumas frases interessantes do livro:

“Diz- me lá, se sabes, o que é o bem e o mal. Onde começa um e começa o outro?” (p. 90)

“Quanto mais forte for o desejo de felicidade, mais infeliz serás. A felicidade não é coisa que se conquiste. (p.111)

“O Beethoven também era feio, não teve nenhuma mulher que o amasse, e foi Beethoven.” (p. 134)

“No meu entender, as mulheres bonitas não querem amar, querem ser amadas.” (p. 134)

“- Está tudo tão mau por aí. Só ouço é gente queixar- se.

- É da situação internacional…” (p. 148) *

“Ter não é possuir. Pode ter- se até aquilo que não se deseja. A posse é o ter e o desfrutar o que se tem.” (p. 167)

“Esforcei- me. E se não o consegui ficou, ao menos, o esforço.” (p. 219)

“Nenhum poeta, como nenhum homem, seja ele quem for, é simples e natural.” (p. 267)

“Assistir é nada. Presenciar é estar morto.” (p. 268)

“Tudo o que não for construído sobre o amor gerará o ódio! (…) Mas talvez tenha que ser assim durante muito tempo…O dia em que será possível construir sobre o amor não chegou ainda…” (p. 398)

Saramago, José. Claraboia, Lisboa, Caminho, 2011.

Preço: 18, 50 euros (na Wook, agora por 16,65)

*Sempre temos a impressão que as coisas no passado eram melhores. É só uma miragem.

“Midnight in Paris”, o filme.

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Incrível, apaixonante, encantador! Woody Allen (Nova Iorque, 01- 12 -1935) “quase”* conseguiu transmitir a aura mágica da cidade de Paris no seu último filme “Midnight in Paris” (“Meia- noite em Paris”):

Um americano viaja com a noiva e seus sogros à Paris. Ele, um roteirista de Hollywood, sonha em morar em Paris para terminar a sua primeira obra literária. Ele começa a andar pela noite parisina e descobre uma dimensão extraordinária; também percebe o pouco que tem em comum com a noiva e tudo toma um rumo diferente do planejado. Veja a sinopse oficial.

Além da fotografia, o que mais me atrai nesse filme é a parte das referências literárias. É um filme excelente como apoio para professores de literatura, pois cita diversos artistas. Woody ressuscitou Salvador Dali, Zelda e Scott Fittzgerald, Ernest Hemingway, Pablo Picasso, T.S.Eliot, Luis Buñuel, Gertrude Stein, Cole Porter, entre outras personalidades do mundo da arte.

O DVD já saiu na Espanha nesse mês de novembro. Ver e rever esse filme para mim foi um verdadeiro deleite, recomendo!

* A aura mágica de Paris é indescritível.

Marcel Proust: “Os prazeres e os dias”

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“Os paradoxos de hoje são os preconceitos de amanhã, pois os mais repugnantes preconceitos de hoje tiveram um momento de novidade em que a moda lhes emprestou a sua frágil graça.” (p.114)

Valentin Louis Georges Eugène Marcel Proust (Auteuil, 10/07/ 1871 - Paris, 18/11/1922), filho de  Achille Adrien Proust, um médico importante na época e da dona- de- casa Jeanne Weil, família tradicional e católica (apesar de sua mão ter origem judia). Teve um irmão que era médico, Robert,  que publicou as obras póstumas de Proust. O escritor estudou em bons colégios e cursou Ciências Políticas na Universidade de Sorbonne, frequentou a alta sociedade francesa. Era homossexual assumido e seu amante era o músico venezuelano Reynaldo Hahn, nacionalizado alemão (segunda foto abaixo).

Na foto, Proust aos 38 anos:

O seu melhor livro considerado pela crítica “uma obra- prima da literatura do século XX”, composto por 16 livros,  ”Em busca do tempo perdido” custou- lhe a vida para ser escrito. Abaixo um trecho do manuscrito em sua escrita caótica:

Proust tinha uma escrita labiríntica, detalhista, prolixa, sensível e em vários dos seus textos mostrou descontentamento com a falta de sinceridade que havia na sociedade parisiense: para se ter amigos e ser popular havia que ser hipócrita. Em “Os prazeres e os dias”, a maioria dos textos trata sobre a alta sociedade de Paris do início do século XX, Proust narra acontecimentos nos salões e festas da época, cria personagens que criticam negativamente músicos e escritores, “Mallarmé já não tem talento, mas é um conversador brilhante”(p.63), coloca a frase na boca de Pécuchet, no conto “Mundanismo e Melomania”. E assim vai soltando verdades que possivelmente ele mesmo gostaria de dizer, mas que sua maneira polida e gentil não permitia, não queria ferir sensibilidades, ele mesmo era muito sensível, dizem as várias biografias espalhadas pela internet. O povo da época deve ter notado, ele não foi um grande vendedor de livros.

Literatura fina para bons leitores: “Os prazeres e os dias” (1924) consta de 67 textos curtos e brilhantes, a maioria criticando os usos e costumes da sociedade burguesa de Paris, delata os “snobes”, fala das fraquezas humanas, dos sentimentos e usa o lirismo em “Argumento” (p. 53), trata dos males de amor e dos amantes compulsivos, mas o que parece incomodar mesmo é a falta de franqueza: não poder dizer a verdade, a sinceridade é confundida com falta de respeito- naquela época e ainda hoje- os textos são super atuais.

A ironia e a sátira dão o tom na maioria dos textos, mas também há uma certa amargura e tristeza, como no conto “Melancólica vilegiatura de Madame de Breynves”, onde Françoise se apaixonou por um homem feio e sem talento, e preferiu amá- lo de forma platônica “(…) que, ao conhecê- lo melhor, tudo isso havia de se dissipar, ela dava a esta miragem toda a realidade da sua dor e volúpia”. (p.79). M. de Laléande nem sabia que a madame da alta sociedade existia e nem que ela estava tão apaixonada, ele tão feio e com sua vida tão medíocre, ele que apreciava péssima música e o mais exótico que tinha na sua casa era uma foto da praia de Biarritz. “Ela vê- o, brilham- lhe os olhos.” (p.83). A madame preferiu ficar só que aparecer em sociedade com um homem feio e medíocre, melhor a ilusão.

Quadro de Jean Beraud, “No café”. Beraud foi contemporâneo de Proust.

Proust também dedica um capítulo aos versos em “Retratos de pintores e de músicos”, onde escreve poemas- homenagens a músicos e pintores que parece admirar muito. Os últimos versos, da última estrofe do poema que escreveu sobre Mozart:

“Escoa a sua flauta encantada, com amor,

Dos sorvetes, dos beijos e do céu o frescor.”

Em “Confissão de uma jovem”(p. 90), Proust cita a Imitação de Jesus Cristo, Livro I, c. XVIII:

“Os desejos dos sentidos arrastam- nos para cá e para lá, passado instante, que ganhais? remorsos de consciência e dissipação de espírito. Parte- se no meio da alegria e regressa- se na tristeza, os prazeres da noite entristecem a manhã. Assim, a alegria dos sentidos adula- vos pela manhã, mas acaba por vos ferir e matar.”

O conto é genial, ele conta a história de uma moça que se confessa no leito de morte. O texto é sobre imposição social, familiar e a culpa. A menina não era dona do seu próprio corpo e nem dos seus desejos, fazia de tudo para agradar a mãe.

Proust viveu uma juventude boêmia, era muito apegado aos seus pais, será essa a conclusão que ele chegou depois de tudo? Teria sido parte dos seus pensamentos depressivos esse moralismo e arrependimento tardios? Sim ou não, o arrependimento é um sentimento universal.

Para quem ama a cidade de Paris como eu, vai se deliciar com a beleza dos textos “As mágoas- devaneios ao ritmo do tempo” (p. 108). São trinta textos que passeiam pelos bairros parisinos e nos deixam frases belíssimas, e outros que nos deixam alguns ensinamentos para a vida, são quase fábulas do cotidiano, com pequenas lições, que me fizeram refletir sobre os meus próprios sentimentos, porque Proust falou sobre sentimentos universais, no fundo, somos todos muito parecidos.

Asmático e alérgico desde criança, faleceu por causa de uma pneumonia mal curada aos 51 anos de idade, junto com uma depressão que carregava desde a morte dos seus pais. Ele recusou- se a receber um médico e fazer exames, e foi seu irmão, o dr. Robert, que o obrigou a tratar- se, mas já era tarde demais. Ele tomava estimulantes para manter- se acordado de dia e calmantes para conseguir dormir de noite, e isso acabou debilitando o seu organismo. Nessa etapa, ele dava os últimos retoques na sua obra- prima, que o manteve recluso, obcecado e cheio de manias até os seus últimos dias, como a aversão ao barulho e à luz do dia, precisava manter- se muito abrigado mesmo no verão, ele tinha comportamentos autodestrutivos e antissociais.

Sou fã de Proust, porque ele disse o que pensava fingindo não dizer, um não- dizer totalmente ao estilo Fernando Pessoa. Não é coisa de gênio?!

“Um dia ventoso”, de Jean Beraud

“Extenuado, nem sequer já aquecido pelo sol raro, o Outono perde uma a uma as suas últimas cores.” (p. 109)

Aos vinte e cinco dias de outubro, nesse outono em Madrid.

Proust, Marcel. Os prazeres e os dias. Editorial Estampa, Lisboa, 2010.

O melhor vem depois: “Claraboia”, José Saramago

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Eis o primeiro livro de José Saramago, rejeitado pelas editoras e agora editado pela Caminho, aqui na mão, fresquinho. A sinopse (clique nas imagens para ampliar):

Abertura do I capítulo:

Na capa:Na contra- capa uma foto belíssima, a imensidão do céu que guarda as almas nos prédios onde se desenvolve o enredo:


O livro chegou um dia depois do lançamento em Portugal, nota dez para a livraria Wook do Porto pela eficiência. O livro ainda veio com um brinde,  uma caneca super bacana:

Na caneca vem um trecho do livro que fala da relação maniqueísta que todo mundo carrega consigo: 

Agora vamos à leitura, logo eu conto!

Saudade

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Comentando no Twitter sobre a palavra “saudade” com o escritor Jairo Cézar (@jairosape e www.escritosnoonibus.blogspot.com) decidimos escrever um poema com o tema “saudade” até o fim do dia. Eu sou leitora e crítica literária, mas não sou mais poetisa, há muitos anos não escrevia nenhum verso. A boa poesia é muito difícil de ser feita, mas ainda que medíocre, resolvi escrever uns versos pra entrar na brincadeira:

A Saudade não esquece,
não dorme, não envelhece
(na foto gretada)
ela sempre revela- se.

A Saudade retém o que escapa,
ela mora na noite, na brisa, na lástima
no som da casa vazia,
na canção do rádio na estrada 
na tinta da folha amassada.

A Saudade no passado
era chamada de Amor.
O Amor,
(inconsciente),
aprisionado na hera,
no gosto, no cheiro de terra,
Grita e espera.

Jairo Cézar é da cidade de Sapé, na Paraíba e  pai da Beatriz, escreveu esse poema belíssimo!

Saudade é labirinto

é perder-se minotauro

 e achar-se infinito.

Um poema escrito e lançado ao leitor deixa de ser do poeta e passa a ser do receptor. A poesia com toda a sua subjetividade dá liberdade e margem à várias interpretações. Um poema sempre será uma obra aberta.

Dois poemas e duas visões completamente diferentes sobre a Saudade.

Ganhador do Prêmio Nobel de Literatura 2011: Tomas Tranströmer

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Esperei ansiosamente o anúncio do ganhador do Nobel de Literatura 2011,  hoje ao meio- dia (07:00- hora brasileira), pois Ferreira Gullar estava no páreo, mas com poucas possibilidades, porque o favorito era o cantor americano Bob Dylan. Num clima de tristeza escrevo esse post,  dia cinza,  dia em que faleceu Steve Jobs, o revolucionário que criou a Apple ( sou fã de carteirinha). Bem que podia ter sido Gullar pra quebrar o jejum brasileiro e dar uma animada, mas foi o poeta Tomas Tranströmer o ganhador do Prêmio Nobel de Literatura 2011 e Dylan também ficou a ver navios.

Eu já falei sobre Gullar aqui no blog, sobre um livro de contos, “Cidades inventadas”, que nem gostei tanto, o forte dele mesmo é a poesia. Também falei sobre o poema mítico “Poema sujo”, um dos mais conhecidos de Ferreira Gullar; e ainda sobre o belo poema- homenagem que Gullar escreveu no dia da morte da sua amiga Clarice Lispector.

Tomas Tranströmer é um psicólogo e poeta sueco, que anda mal de saúde aos 80 anos, ele sofreu um AVC em 1990 e ficou com sequelas, não pode falar e ficou com o lado direito do corpo paralisado, mas ele fala através da sua poesia.

Acho que vamos ter que esperar (muito) o nosso Nobel de Literatura.

Cheiro de Amor e Almir Serra no Brazilian Day Madrid

O Brazilian Day aconteceu ontem (25 de setembro) no Parque de Aluche,  um bairro periférico de Madri. Pastéis fritos na hora, coxinhas, esfihas, cocadas e outras guloseimas típicas brasileiras, além do Guaraná Antarctica. Música brasileira, com exceção da péssima banda espanhola de rap, “La Excepción”, que ficou fora de lugar, já que era um festival de música brasileira. Acho que foi a forma que usaram para agradar também aos espanhóis. O problema é que a banda trouxe um tipo de público desagradável para a festa familiar que estava acontecendo: a aura de maconha ficou insuportável e tivemos que mudar de lugar algumas vezes. No mais, a festa aconteceu num ambiente de paz e alegria, a praça lotada de brasileiros, principalmente.

Um cantor que eu não conhecia e gostei muito, Almir Serra:

Vídeo com umas das músicas que mais gosto, “Você”, do Tim Maia, versão de Almir Serra:

Cheiro de Amor, com Aline Rosa, chegou pra encerrar a festa, pra matar (ou piorar) as saudades da Bahia:

Vídeos do show (perdoem a péssima gravação, mas era impossível manter a câmara parada), um trechinho da abertura da Cheiro de Amor:

A música “Esperando na janela”:

Você é a escada da minha subida
Você é o amor da minha vida
É o meu abrir de olhos do amanhecer
Verdade que me leva a viver
Você é a espera na janela
A ave que vem de longe tão bela
A esperança que arde em calor
Você é a tradução do que é o amor

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